Arte sem fronteiras

Uma outra forma de ver a arte. Sem limites ou preconceitos. E-mail: dicopt@yahoo.com

Name: Ed

Sunday, December 10, 2006

[SUGESTÃO / CRÍTICA – livro]
MAIS ESTÓRIAS DA MÚSICA
Luís Filipe Barros
DisLivro

Figura incontornável da rádio portuguesa, Luís Filipe Barros marcou toda uma geração com o lendário programa "Rock em Stock", ansiosamente ouvido pela juventude dos anos 80. O êxito do programa, que acabou por elevar Barros a ícone do éter nacional, residia não só no impressionante ritmo que o seu autor imprimia à locução mas também às fantásticas playlists, baseadas em discos importados e em seminais gravações de algumas das figuras maiores do então emergente Rock Português.

As histórias que ao longo dos anos LFB (ou "Berros", como se tornou conhecido) contou sobre música punham a nu as fragilidades e loucuras dos grandes ícones das massas, tornando-se rapidamente lendárias e proporcionando às emissões de "Rock em Stock" fabulosos níveis de audiência. Desse conceito resulta agora o livro Mais Estórias da Música, com prefácio de Francisco José Viegas e edição da DisLivro.

Divertido e de leitura rápida, o volume agradará certamente aos melómanos, que nele descobrirão curiosidades e histórias nunca antes imaginadas (e algumas nunca antes contadas) de lendas do Rock como Elvis Presley, Ozzy Osbourne, The Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Elvis Costello ou Cliff Richard, entre centenas de outros.

Infelizmente, os sucessivos atentados à língua portuguesa (na maior parte das vezes erros crassos), em especial ao nível das vírgulas (que teimam em não ocupar os seus devidos lugares) mancham a obra, a mística do autor e perturbam a leitura de forma sistemática - prova-se assim, mais uma vez, que bons profissionais de uma dada área não devem aventurar-se noutras que não dominam, pelo menos sem auxílio especializado, sob pena de fazerem asneira.

Alguns exemplos apenas: “Corria tudo pelo melhor, quando a nossa BB, se aproveitou do evento (...) - página 55, 9ª linha; “Chubby Checker, foi um verdadeiro fenómeno (...)” - página 60, penúltima linha; “ Em 1968 Gus Legend, ajudou na compsição (...)” - página 70, 14ª linha; “As histórias dos fãs de Ozzy não se ficam atrás das suas, sendo tudo, menos banais.” - página 162, 14ª linha. Se a isto juntarmos fenómenos como “Uniceff” (atenção aos dois “f”), na primeira linha da página 105, ficamos com uma visão mais ou menos abrangente do que poderemos encontrar neste volume.

Por outro lado, uma enorme percentagem dos textos começa sem que seja indicado o grupo/artista a que dizem respeito, tendo o leitor que consultar o último parágrafo (a seguir ao qual se encontra identificado o sujeito e respectivo site) ou o índice para saber a quem se refere a prosa. Nada intuitivo, portanto. Finalmente, o ritmo de leitura é quebrado de forma quase sistemática por parágrafos sem razão de existir. Uma edição e revisão cuidadas são altamente aconselháveis para uma eventual segunda prensagem.
Dico

Luís Filipe Barros assina diariamente a rubrica "Outras Histórias da Música" (01h40/06h40), na Antena 1, podendo também ser ouvido entre as 00h00 de sexta-feira e a 01h00 de sábado (com repetição às 17h00) no programa "Ondas Luisianas".

Monday, October 30, 2006

[ENTREVISTA]
FLAMETAL
MAIS DO QUE APENAS MÚSICA

Nas artes, e particularmente na música, já tudo foi feito. Certo? Errado! Quando julgamos impossível encontrar uma réstia de originalidade na música contemporânea surge perante nós a mais inesperada das novidades. Os norte-americanos Flametal, que fundem Metal e Flamenco, constituem um exemplo paradigmático disso mesmo. Para melhor conhecer este peculiar grupo e respectivo álbum de estreia, The Elder, falámos com Benjamin Woods, seu mentor e guitarrista.

O motivo que te levou a descobrir o Flamenco é bastante invulgar. Certamente que na altura não lhe achaste graça, mas julgo que agora, vários anos passados, te divirtas com a situação. Queres explicar aos nossos leitores o que aconteceu?
Eu tocava numa banda de Speed Metal em Seattle e vivia com um grupo de amigos mais um tipo que não conhecíamos bem. A dada altura ele começou a drogar-se e um dia, quando cheguei a casa, todo o meu equipamento havia desaparecido, tal como ele. [risos]. Então, comecei a exercitar os dedos numa guitarra acústica com cordas de nylon, a única que ele deixou. Num instante, sem querer, esbocei uns acordes de Flamenco. Fiquei determinado a aprender a tocar esse género de música, apaixonei-me pela riqueza e complexidade das suas estruturas. Ao longo dos anos deixei muitos empregos para poder praticar mais tempo.

Imagino que tenha sido um grande desafio formar uma banda com estas características...
Na altura em que descobri o Flamenco era um metalhead de coração, mas depois fiquei determinado a fazer algo assim. Durante algum tempo compus imenso material para os Flametal mas não gravei qualquer tema, até que o meu amigo, colega e mentor Jason McGuire (um génio da guitarra, da produção e da engenharia de som no que respeita ao Flamenco) se ofereceu para gravar uma das minhas canções. Propus-lhe este híbrido de Metal e Flamenco e gravámos a «Bruja Tortura», tendo ele tocado baixo e programado a bateria. Além disso, tivemos a fantástica contribuição do Marty Friedman [NR.: ex-Cacophony, ex-Megadeth], que fez alguns solos espantosos. Divertimo-nos tanto que acabámos por gravar mais duas canções («P'alla al Infierno» e «Cuatro Caballeros»), nas quais Jose Manuel Blanco "El Grillo" [NR.: famoso vocalista e compositor de Flamenco] cantou. A demo ficou com um som espantoso.

Foi difícil encontrar os músicos certos para a banda?
Por acaso não, só os melhores executantes poderiam aceitar o desafio de tocar este temas. Os primeiros músicos que conheci e a quem fiz audições são alguns dos melhores que já ouvi e ainda fazem parte da banda. Sinto-me honrado por trabalhar com pessoas tão talentosas.

The Elder foi editado de forma independente. Foi uma necessidade ou uma opção?
Editei o álbum com o meu dinheiro, nunca houve outra opção. Gravámos o disco ao vivo no estúdio em meras seis horas, com apenas alguns overdubs de voz e guitarra adicionados noutro dia. Por isso, os custos de gravação foram baixos, e, graças ao nosso fantástico engenheiro de som, Bob K., ficámos muito satisfeitos com a energia e sonoridade limpa que obtivémos. As editoras gostam de nós mas não querem editar-nos porque não encaixamos nas sua políticas editoriais. Não as censuro, no fundo são empresas que querem investir naquilo que vende e não em experimentalismos malucos.

Fala-nos do vosso processo de composição. Habitualmente compões sozinho ou os temas são criados por toda a banda na sala de ensaios?
Fui eu que compus todas as canções deste álbum, pois sabia exactamente como os instrumentos deveriam ser tocados. Tinha na cabeça todas as partes e harmonias antes mesmo de saber como as executar. Cada músico deu à sua interpretação as inflexões criativas necessárias e todos fizeram um excelente trabalho. Para o segundo álbum estamos a compor os temas em grupo, actuando eu como director musical e artístico. Faço muitas alterações aos temas para manter os ritmos e os tons do Flamenco, mas cada músico assume agora uma parte mais importante no processo de composição.

Os vossos espectáculos são visualmente ricos, com dançarinas e um ambiente muito específico. Como descreverias um concerto dos Flametal?
Mais do que tocar apenas Metal, esforçamo-nos por entreter o público. O Flamenco é mais do que apenas música, é arte, daí a nossa paixão pelo género. As histórias de terror que envolvem a nossa música podem ser retratadas através da dança, sedutora e obscura, e fazer o público borrar-se de medo no regresso a casa [risos]. O que fazemos em palco não é uma peça de teatro ou uma ópera, é um espectáculo de Metal mais extravagente do que é hábito.

Como é que os fãs e os media reagiram ao vosso conceito artístico? Sentiste que a banda foi bem aceite?
Até agora as reacções têm sido incrivelmente positivas, na sua esmagadora maioria. Alguns fãs nossos nunca haviam sido expostos ao Metal ou ao Flamenco, portanto alargaram os horizontes. As críticas ao álbum e aos concertos têm sido magníficas. No entanto, recebemos alguns comentários negativos, do género "dança no Metal não lembra a ninguém" ou "o nome Flametal é sinónimo de música para maricas". Hilariante, não é? Mas não me levo demasiado a sério, portanto não fico ofendido.

Vocês têm actuado bastante ao vivo nos últimos meses, mas existem planos para realizar uma verdadeira digressão? Planeiam tocar fora dos Estados Unidos?
Estamos a preparar uma digressão na Costa Oeste do país para o fim do ano e a tentar organizar uma tourneé em Espanha. Contudo, ainda nada está decidido.

E já existem canções para o álbum seguinte? Já escolheram um produtor e um estúdio para gravar?
Já compusemos metade do album e gravámos, por nossa conta, grande parte desse material. Obviamente que gostaríamos de ter um orçamento generoso para trabalhar, mas vamos ver o que acontece.

Portanto, este CD também vai ser editado pela banda...
Veremos se alguma editora nos propõe o contrato certo, mas, independentemente do que aconteça, vamos cumprir a agenda editorial que estabelecemos. Na era da Internet, assinar por uma editora não é assim tão importante. Os selos discográficos podem fazer um bom trabalho de promoção e investir bastante dinheiro em digressões para as suas bandas, mas gosto de controlar todos os aspectos do negócio e não ficar em dívida para com uma editora. No entanto, quem sabe...

Alguns elementos da banda estão envolvidos num grupo de fusão chamado The Skeletons, cuja orientação musical é igualmente inovadora. Fala-nos desse projecto.
Os The Skeletons tocam versões simplificadas de temas dos Flametal, numa abordagem de Jazz de Fusão, mas mantendo o Flamenco como pilar. Despimos as canções dos arranjos complexos, tocamos apenas os seus "esqueletos" [NR.: daí o nome do grupo]. Nalguns espectáculos somos dois músicos em palco, noutros somos três.

Muitos dos acordes agressivos, tocados com distorção, cedem lugar a outros mais limpos, jazzísticos. Frequentemente abrandamos a cadência rítmica de forma a deixar respirar melodias igualmente interessantes. A bateria é substituída pelo cajón e o baixo mantém-se firme e pujante, mas são-lhe dadas mais oportunidades para brilhar.

Embora os temas sejam maioritariamente originais, também executamos peças de bandas e músicos como Sting, Led Zeppelin, Bach ou The Beatles. Os The Skeletons estão vocacionados para actuar em salas mais pequenas e intimistas, tendo como público-alvo pessoas que gostam de boa música mas não apreciam Metal ou volumes de som excessivamente elevados.

Os The Skeletons são um colectivo de palco ou a gravação de um álbum faz parte dos vossos planos?
Somos uma banda de palco, sem dúvida, actuamos em salas de espectáculos de Jazz, em pequenos clubes, festas privadas, casamentos, etc. Contudo, pretendemos gravar um álbum até ao fim do ano.
Dico